Relatório global da Mintel aponta três grandes forças que irão moldar o comportamento do consumidor até 2030, e desafiam a indústria cosmética a repensar tecnologia, longevidade e conexão humana.
A indústria cosmética entra em um novo ciclo de transformação. Segundo o relatório “2026 Global Consumer Predictions”, da Mintel, o consumidor vive um paradoxo crescente: ao mesmo tempo em que se beneficia da automação, da inteligência artificial e da hiperpersonalização, passa a questionar o excesso de mediação algorítmica, a perda de identidade individual e o enfraquecimento das conexões humanas.
O estudo identifica três grandes vetores globais que irão impactar diretamente marcas de beleza, cuidados pessoais e bem-estar: a rejeição aos algoritmos como força dominante, a redefinição da idade e da longevidade e o chamado “déficit de afeto” em uma sociedade cada vez mais automatizada. Para o setor cosmético, esses movimentos não são apenas comportamentais — eles exigem reposicionamento estratégico, inovação de portfólio e novas narrativas de marca.
1. Anti-algoritmo: quando a personalização deixa de encantar
Durante anos, a promessa da indústria digital foi clara: mais dados, mais eficiência, mais personalização. No entanto, a Mintel aponta um movimento global de cansaço algorítmico. Consumidores começam a perceber que recomendações automatizadas moldam não apenas escolhas de compra, mas estilos de vida, estética, opinião e identidade.
Na prática, o algoritmo deixou de ser um facilitador invisível para se tornar um curador dominante, frequentemente associado à padronização, à perda de espontaneidade e à superficialidade das relações com marcas.
Impactos diretos para a indústria cosmética
• Saturação de tendências “virais”, com ciclos cada vez mais curtos
• Dificuldade de construir lealdade verdadeira, já que a viralidade não sustenta relacionamento
• Crescente valorização do feito por humanos, do artesanal, do sensorial e do imperfeito
A Mintel destaca que 63% dos consumidores no Reino Unido afirmam valorizar mais produtos criados por humanos em um contexto de IA crescente, enquanto 57% dos brasileiros demonstram preocupação com sua dependência tecnológica para se comunicar.
Oportunidade para marcas
Marcas de cosméticos que conseguirem usar a tecnologia sem serem definidas por ela — oferecendo personalização transparente, escolhas editáveis e experiências que devolvem o controle ao consumidor — terão vantagem competitiva. O futuro não está em “alimentar o algoritmo”, mas em empoderar o indivíduo.
2. “The New Young”: a idade perdeu o sentido — e isso muda tudo
Outro ponto central do relatório é a dissolução das etapas tradicionais da vida. Juventude, maturidade e envelhecimento deixam de ser caixas rígidas. A Mintel chama esse fenômeno de “extended middle of life”, um longo período onde pessoas de 40, 50 e 60 anos seguem buscando novidade, prazer, reinvenção e autoexpressão.
A longevidade crescente, combinada a mudanças econômicas e culturais, faz com que:
• O prazer não fique restrito à juventude
• O autocuidado não seja apenas prevenção, mas expressão
• A beleza deixe de “combater a idade” para acompanhar transformações
• Cosméticos além do anti-idade
Campanhas exclusivamente focadas em juventude perdem relevância. Em contrapartida, crescem abordagens pro-age, de beleza funcional, autocuidado emocional, rituais de bem-estar e produtos que dialogam com energia, vitalidade e identidade — e não com negação do tempo.
A Mintel destaca exemplos globais e brasileiros de marcas que já exploram esse território, com narrativas que celebram a maturidade ativa, a reinvenção pessoal e a liberdade estética em qualquer fase da vida.
Oportunidade para marcas
Desenvolver produtos e comunicação que dialoguem com autenticidade, experiência e longevidade funcional, rompendo estereótipos etários. A inovação não está apenas na fórmula, mas no propósito do produto na vida real do consumidor.
3. O déficit de afeto: quando eficiência substitui conexão
O terceiro grande eixo do relatório talvez seja o mais sensível — e o mais negligenciado. A Mintel identifica um enfraquecimento progressivo das interações humanas cotidianas, causado pela automação, pela mediação digital e pela busca incessante por eficiência.
Autoatendimento, checkouts sem pessoas, aplicativos de relacionamento exaustivos, interações mediadas por IA: tudo isso reduz fricção, mas também esvazia vínculos emocionais. Surge, então, o que o estudo chama de “Affection Deficit”.
E onde a cosmética entra nisso?
Historicamente, o setor de beleza sempre operou no território do toque, do ritual, do cuidado e da presença. Em um mundo cada vez mais impessoal, isso se torna um ativo estratégico.
Segundo o relatório:
76% dos donos de pets no Canadá afirmam depender emocionalmente de seus animais
Cresce a busca por experiências sensoriais, rituais íntimos e autocuidado como forma de conexão
Oportunidade para marcas
Criar produtos, experiências e narrativas que resgatem o afeto, o tempo dedicado a si e a conexão emocional, seja no ponto de venda, no ritual de uso ou na comunicação. Marcas que conseguem gerar sentimento de pertencimento — e não apenas conveniência — tendem a construir valor de longo prazo.
O que tudo isso significa para a indústria cosmética?
O relatório da Mintel deixa claro: o futuro da beleza não será apenas tecnológico, nem apenas emocional — será o equilíbrio entre ambos. As marcas que liderarem esse novo ciclo serão aquelas capazes de:
• Usar tecnologia como ferramenta, não como protagonista
• Tratar longevidade como potência, não como problema
• Transformar produtos em experiências de significado
• Construir confiança, não apenas visibilidade
Mais do que acompanhar tendências, o desafio agora é redefinir o papel da cosmética na vida das pessoas — como aliada na expressão, no bem-estar e na conexão humana em um mundo cada vez mais automatizado.